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AFETIVA

SUSTENTABILIDADE

vínculos que tensionam a indústria da moda

SOBRE ESTE MATERIAL

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Este material surge como desdobramento da dissertação "SUSTENTABILIDADE AFETIVA NA MODA:

Uma compreensão pela Prática Experimental Expandida (PEE) em Design Estratégico", desenvolvida a partir das aproximações entre Experimentação em Design Estratégico, Abstracionismo Lírico e Biomoda. Mas antes de qualquer conceito, um posicionamento é necessário:

Sou filha de costureira. Cresci vendo minha mãe produzir roupas que outras pessoas usariam, descartariam e esqueceriam, enquanto ela carregava o trabalho daquela criação no corpo, na postura, nos anos de ofício. Sou periférica, venho de um recorte social que a indústria da moda consome sem nomear.

Falar sobre sustentabilidade, para mim, nunca foi apenas falar sobre materiais ou circularidade. Foi sempre falar sobre permanência, sobre quem fica com os resíduos dessa lógica, sobre os corpos que mais sofrem quando o sistema falha.

Ao longo da formação em Design de Moda e posteriormente no mestrado em Design Estratégico, algumas inquietações passaram a atravessar continuamente minha prática:

Por que certas peças permanecem conosco por anos enquanto outras são rapidamente descartadas

?

De que maneira a sustentabilidade poderia ser pensada para além de soluções exclusivamente técnicas

?

Como os vínculos interferem nas relações de consumo

?

Essas inquietações se fortaleceram a partir da aproximação com o Abstracionismo Lírico, especialmente pela valorização da subjetividade, da revisitação, da emoção e da sensibilidade como forças legítimas de criação e resistência. O Abstracionismo Lírico não é apenas uma referência estética. Ele é um modo de estar no mundo que diz: emoção também é método. Sensibilidade também é argumento.

A sustentabilidade afetiva não é um conceito limitado à moda. Mas foi nesse recorte, atravessado pelas crises climáticas que assolam especialmente o Sul do Brasil, e pelas contradições de uma indústria que ao mesmo tempo sustenta e devora quem dela depende, que escolhi tensioná-la. Porque é aqui que as contradições são mais visíveis. E porque é daqui que falo.

Este material não pretende transformar a sustentabilidade afetiva em metodologia rígida, cartilha empresarial ou solução universal para os problemas da moda. É um convite para revisitar processos, observar a matéria de maneira mais relacional e compreender a sustentabilidade também como construção de vínculo, permanência e produção de sentido.

MODA, SUSTENTABILIDADE E RELAÇÕES DE PERMANÊNCIA

01.

A sustentabilidade deixou de ocupar um lugar periférico dentro da indústria da moda. Esse movimento é real. E ao mesmo tempo, insuficiente.

Mesmo diante desses avanços, a moda continua operando em uma lógica estruturada pela constante renovação de produtos, tendências e estímulos de consumo. Nos últimos 15 anos, a produção global de roupas dobrou. O Brasil produz quase 9 bilhões de peças por ano. E cerca de 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis são geradas globalmente a cada ano, menos de 1% reaproveitadas.

O problema não está apenas nos números.

O problema não está apenas nos números. Está na lógica que os produz.

Nesse contexto, a obsolescência não acontece apenas no nível material. Muitas vezes, roupas continuam fisicamente utilizáveis, mas deixam de produzir continuidade simbólica diante da velocidade com que novas tendências e experiências de consumo são produzidas. 

O próprio vínculo passou a ser incorporado pela indústria como estratégia de aproximação entre consumidores e produtos.

A H&M já explorou explicitamente os laços emocionais entre mulheres e suas roupas em campanhas publicitárias. Mas há uma contradição:

 

se uma campanha dura menos de 15 dias antes de ser substituída pela próxima, o vínculo que ela promete é genuíno ou é apenas o intervalo entre um consumo e outro?

É justamente nesse cenário de greenwashing e de talentos mal alocados, que a sustentabilidade afetiva começa a emergir como possibilidade crítica. Não como solução definitiva, mas como reposicionamento: trazer para o centro da discussão o vínculo, a experiência, a subjetividade e a construção de sentido.

Ou por que a bolsa cara que você comprou no ano passado já não te diz nada, enquanto uma peça simples que você ganhou de alguém querido parece insubstituível

O QUE É SUSTENTABILIDADE AFETIVA?

02.

Já parou para pensar por que ainda tem aquela camiseta que já está desbotada, mas você não consegue jogar fora

?

A Sustentabilidade Afetiva parte exatamente daí.

O que sustenta uma roupa não é apenas a qualidade do tecido. É a densidade das relações que ela carrega. E o descarte acelerado não é só ambiental: é também simbólico. Quando uma peça perde sentido antes de perder forma, ela vai embora.

Ela opera como fenômeno atravessado por quatro dimensões que emergiam continuamente na prática:

Experimentação

a abertura ao imprevisto, ao erro e à revisitação constante dos processos.

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Essas dimensões operam juntas e a REVISITAÇÃO que as costura.

Subjetividade

memórias, referências, expressões, desconfortos e construções de sentido que atravessam a criação.

...

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Não se trata de romantizar o consumo e não substitui a urgência da circularidade ou da responsabilidade ambiental. O que ela propõe é uma ampliação: compreender que vínculo, experimentação, subjetividade e matéria também são formas de mitigar a lógica acelerada do descarte. E que sustentabilidade, às vezes, começa por dentro, no significado que atribuímos ao que já existe.

Há um conceito que atravessa tudo o que veio depois e que começa com uma pergunta simples:

você já revisitou algo?

Atenção: isso não é o mesmo que design emocional. Não se trata de projetar afeto, ou determinar o que alguém deve sentir ao usar uma peça. Pelo contrário, aqui se compreende que o vínculo não se projeta, ele emerge. Nenhuma das peças que as pessoas guardam por décadas foi pensada para durar afetivamente. Ela durou porque algo aconteceu entre ela e quem a usava.

Matéria

a presença ativa dos materiais, que interferem diretamente nas decisões projetuais.

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Vínculo

não como apego imediato, mas como possibilidade de permanência construída ao longo do tempo.

REVISITAÇÃO: O QUE O ABSTRACIONISMO LÍRICO TEM A VER COM O SEU GUARDA-ROUPA?

03.

Não da forma superficial, abrir uma caixa e fechar de volta. Mas de verdade: pegar algo antigo, olhar para ele com os olhos que você tem hoje, e perceber que ele é diferente. Ou que você é diferente. Ou os dois.
O Abstracionismo Lírico, movimento artístico que emergiu no início do século XX com Wassily Kandinsky, fazia isso. Os artistas eram incentivados a revisitar suas obras — pintar novas emoções sobre o que já existia, ou deixar que novos cenários de vida reconfigurassem o que antes havia sido criado. O erro não era apagado, desvio não era descartado, ele era integrado.

O que isso tem a ver com moda?
Tudo.

Porque as peças que permanecem no seu guarda-roupa também funcionam assim. Elas não ficam porque são as mais bonitas ou as mais caras. Ficam porque algo nelas te afetou. E quanto mais você as usa — em dias diferentes, em contextos diferentes, com pessoas diferentes — mais camadas de significado elas acumulam. Você as revisita sem perceber.

Pensa na camiseta que você usou em uma viagem inesquecível. No casaco que era do seu pai. Na peça que você comprou no dia em que precisava se sentir capaz de algo. Essas roupas não foram projetadas para durar afetivamente, mas duraram. Porque a experiência as transformou em outra coisa.

Isso é revisitação.
E é exatamente o oposto do que a fast fashion propõe.

Ela vende a promessa de que você sempre vai precisar de algo novo para se sentir completa.

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O Abstracionismo Lírico também carregava uma dimensão de resistência. Em meio ao caos — guerras, revolução industrial, colapso de certezas — os artistas expressavam o que sentiam em vez de suprimi-lo. Lidar com emoções como instrumento de resistência não é fragilidade. É um gesto político.

Trazer essa perspectiva para a moda significa dizer: a experiência subjetiva de quem usa a roupa importa. Mais do que a tendência. Mais do que a estação. E é essa experiência que determina, em última instância, se a peça vai para a brechó ou vai ficar por mais uma década.

A revisitação propõe outra coisa: que o que você já tem pode continuar sendo ressignificado. Que uma peça não é exclusiva de uma ocasião. Que ela pode, e deve, ser revestida de novos sentidos ao longo do tempo. Esses gestos cotidianos de ressignificação são formas silenciosas de sustentabilidade afetiva. Não exigem certificação ambiental. Não exigem investimento em novas tecnologias. Exigem atenção ao que já existe.

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AS DIMENSÕES DA SUSTENTABILIDADE AFETIVA

04.

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Ao longo da conceituação da Sustentabilidade Afetiva, percebeu-se que quatro dimensões emergiam de forma recorrente dentro dos processos experimentais. Elas não funcionam como etapas metodológicas fixas, mas sim como atravessamentos, interferindo continuamente na forma como sujeitos, materiais e artefatos se relacionam.

EXPERIMENTAÇÃO: Durante a prática, processos precisavam ser constantemente revisitados, adaptados e reorganizados diante de erros, instabilidades e respostas inesperadas dos materiais. Biomateriais mofavam, receitas não funcionavam, texturas mudavam sozinhas, e eram justamente essas instabilidades que abriam caminhos que o planejamento nunca teria antecipado. Nesse contexto, experimentar deixou de significar apenas testar soluções e passou a significar negociar continuamente com aquilo que emerge durante o processo. No Design Estratégico, essa abertura não é considerada fragilidade metodológica, pois é o que permite que o processo produza conhecimento real.

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MATÉRIA: 

Biomateriais, resíduos e artefatos reaproveitados passaram a interferir diretamente nas decisões projetuais. Um exemplo disso foi uma situação acontecida durante a PEE onde esses conceitos foram aplicados e revisitados: um scoby de kombucha inicialmente descartado por não apresentar as propriedades esperadas tornou-se um dos protótipos mais expressivos da exposição final, não apesar da imperfeição, mas por causa dela.

Scobys de kombucha, fios de alginato, resíduos têxteis e deteriorações evidenciaram que os materiais também respondem, limitam, transformam e deslocam os processos. A agência da matéria não é neutra e quando o design aprende a escutar essa agência, o resultado é muito mais interessante.

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SUBJETIVIDADE: O gesto subjetivo deixou de ser entendido como excesso emocional. Ele passou a ocupar um lugar legítimo dentro do processo projetual. Porque toda escolha criativa carrega subjetividade, a diferença está em assumi-la ou escondê-la. A aproximação com o Abstracionismo Lírico tornou-se importante nesse contexto por compreender emoção, gesto e sensibilidade não como fragilidade metodológica, mas como potência crítica e criativa.

VÍNCULO:  O vínculo começou a ser percebido não como apego imediato ou emoção previamente projetada sobre os produtos, mas como possibilidade de permanência construída ao longo do tempo. Principalmente através da revisitação, da continuidade de uso e da construção de sentido, não através de campanhas.

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Essas dimensões se atravessam o tempo todo.

A experimentação interfere na relação com a matéria. A subjetividade altera a construção de vínculo. A revisitação transforma os significados atribuídos aos artefatos.

A PEE: ONDE A SUSTENTABILIDADE AFETIVA GANHOU FORÇA

05.

O conceito de sustentabilidade afetiva surgiu antes da prática. Mas foi durante a Prática Experimental Expandida (PEE) que ele deixou de ser intuição e passou a ser fenômeno observável.

A PEE reuniu participantes de diferentes áreas criativas — design gráfico, design de moda, pós-graduação em Design Estratégico — em atividades relacionadas à experimentação com biomateriais, reaproveitamento material, criação de artefatos, registros subjetivos, revisitações processuais e construção coletiva.

Dentro da prática, o erro não operava como falha a ser eliminada. Ele funcionava como parte do próprio processo:

O que isso tem a ver com moda?
Tudo.

Porque as peças que permanecem no seu guarda-roupa também funcionam assim. Elas não ficam porque são as mais bonitas ou as mais caras. Ficam porque algo nelas te afetou. E quanto mais você as usa — em dias diferentes, em contextos diferentes, com pessoas diferentes — mais camadas de significado elas acumulam. Você as revisita sem perceber.

Pensa na camiseta que você usou em uma viagem inesquecível. No casaco que era do seu pai. Na peça que você comprou no dia em que precisava se sentir capaz de algo. Essas roupas não foram projetadas para durar afetivamente, mas duraram. Porque a experiência as transformou em outra coisa.

  • Biomateriais mofavam

  • Receitas não alcançavam as expectativas iniciais

  • Texturas mudavam

  • Artefatos precisavam ser refeitos

E eram justamente essas instabilidades que revelavam novas possibilidades. Uma troca registrada nos encontros resume bem essa postura:

"Cara, fomos muito mal hoje? Nenhuma deu certo, perdemos um tempão nisso."

A minha resposta foi direta: não existe fracasso. Descobrimos o que não fazer e isso também é conhecimento. 

Foi também dentro da PEE que a matéria começou a deixar de ocupar um lugar puramente passivo. Scobys de kombucha, resíduos têxteis, biomateriais de alginato, fibras, mofos, desgastes e deteriorações passaram a interferir diretamente nas decisões projetuais.

Ao mesmo tempo, a subjetividade atravessava continuamente as experimentações — dinâmicas com croquis, músicas escolhidas pelos próprios participantes, objetos de carga emocional, memórias e experiências individuais que passaram a interferir na construção dos artefatos produzidos.

Os participantes relataram que nunca haviam pensado conscientemente no motivo pelo qual guardavam determinadas roupas. Que o ato de nomear esse vínculo, dar linguagem ao que ficou, modificou o modo como passaram a olhar para seus próprios guarda-roupas. Isso, em si, já é sustentabilidade afetiva em ação.

06.

BIOMODA COMO CAMPO EXPERIMENTAL

Ao longo da pesquisa, a Biomoda apareceu não apenas como alternativa material, mas como campo experimental capaz de deslocar relações tradicionais entre design, matéria e sustentabilidade.

É importante ser honesta sobre como essa pesquisa se apropriou da Biomoda. Ela, até esse momento, não foi pensada como solução em escala. Não é o caminho imediato para a indústria como um todo, mas é um campo de possibilidades que tensiona o presente ao imaginar futuros possíveis — e isso tem valor, principalmente em um cenário onde as manualidades e a natureza voltaram a ser pilares valorizados pela indústria.

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Durante a PEE, biomateriais produzidos a partir de kombucha, alginato e fibras naturais passaram a integrar diferentes experimentações projetuais. Em muitos casos, os materiais reagiam de formas imprevisíveis e receitas precisavam ser refeitas. Eram essas instabilidades que deslocavam a lógica tradicional de controle absoluto sobre os processos — e ensinavam algo que nenhum manual havia ensinado: a matéria tem ritmo próprio e respeitar esse ritmo é também uma escolha política.

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Ao mesmo tempo, algumas experimentações evidenciaram possibilidades concretas de permanência. Um dos croppeds produzidos com fios de alginato e lã durante a prática permaneceu preservado mesmo após cinco meses de seu desenvolvimento. Os acessórios de scoby de kombucha também.

Esses resultados não eliminam as limitações em relação à escala industrial. Mas demonstram potencial para contextos mais experimentais, sazonais e simbólicos.

É nesse ponto que as coleções cápsula se tornam especialmente interessantes, e o carnaval é um exemplo perfeito. No contexto carnavalesco, muitas peças são produzidas para uso efêmero, utilizadas poucas vezes e depois descartadas ou armazenadas. Mas o carnaval também é um dos territórios mais ricos de expressão subjetiva do Brasil. É onde a identidade se materializa na fantasia, onde o corpo faz política, onde o gesto vira manifesto.

Nesse cenário, biomateriais podem operar como alternativa pertinente para acessórios, peças experimentais e artefatos desenvolvidos em menor escala. 

Efêmero não precisa significar irresponsabilidade.

A Biomoda, posicionada desta forma, não é o foco central da sustentabilidade afetiva, mas é um dos territórios mais ricos para experimentá-la. Porque ao trabalhar com matéria que tem vida, ritmo e imprevisibilidade, ela torna visível o que outras práticas escondem: a dependência do projeto em relação àquilo que ele não controla, a agência da matéria.

A Biomoda, posicionada desta forma, não é o foco central da sustentabilidade afetiva, mas é um dos territórios mais ricos para experimentá-la. Porque ao trabalhar com matéria que tem vida, ritmo e imprevisibilidade, ela torna visível o que outras práticas escondem: a dependência do projeto em relação àquilo que ele não controla, a agência da matéria.

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07.

UPCYCLING E RECONFIGURAÇÃO DE SENTIDO

Embora o upcycling não tenha ocupado o eixo central da pesquisa divulgada aqui, diferentes atravessamentos observados ao longo da investigação fizeram com que essas práticas passassem a ocupar um espaço importante dentro das possibilidades de aplicação da sustentabilidade afetiva.

Atualmente, diferentes marcas, designers e varejistas incorporam estratégias relacionadas ao reaproveitamento em suas coleções. A Riachuelo, por exemplo, desenvolveu em parceria com o designer Marcelo Sommer uma cápsula de upcycling dentro da linha Pool Loop — comercializada em pequena escala e com transparência sobre essa limitação ao público.

Isso importa: a transparência sobre o que é possível hoje já é um passo diferente do greenwashing.

Dentro da sustentabilidade afetiva, o potencial do upcycling não está apenas na redução de resíduos, mas também na continuidade de sentido.

Diferentemente de processos que partem exclusivamente de matérias-primas novas, o upcycling trabalha com artefatos que já carregam memória e transformação. Nesse contexto, reaproveitar não significa apenas reutilizar materiais, mas também revisitar sentidos já existentes e permitir que novas relações continuem emergindo a partir deles.

Porém,

Pensar o upcycling em escala industrial exige cuidado e estratégia. Seria arriscado imaginar que grandes marcas conseguiriam produzir vínculos profundos e individualizados com milhões de consumidores através de estratégias previamente determinadas — isso seria Design Emocional, não sustentabilidade afetiva.

Mas há outros caminhos possíveis. Um deles parte dos próprios resíduos e peças danificadas da cadeia produtiva.

 

> Em vez de descartar, a indústria pode analisar quais peças geraram permanência, quais as pessoas guardaram e ressignificaram por mais tempo, e a partir dessas análises, modelar peças semelhantes.

"você deve sentir X ao usar essa peça"

Que tal propor um convite

"O que você sente com isso?" Mostrar a versatilidade das peças em dias comuns e em ocasiões especiais. Uma peça que aparece no aniversário, no trabalho, no mercado, na viagem. 

Essa abordagem ativa algo importante: o olhar crítico do próprio sujeito que consome. Quando a comunicação convida à experiência em vez de impor o vínculo, ela abre espaço para que vínculos reais possam emergir.

Isso também se conecta ao contingente de profissionais qualificados subempregados mencionados antes. Processos de upcycling, por sua natureza mais artesanal e técnica, podem reativar essas redes de trabalho. Costureiras, modelistas, bordadeiras, designers — pessoas que dominam ofícios que a aceleração produtiva não valoriza devidamente. Escalar sustentabilidade afetiva também é escalar oportunidades. 

Escalar sustentabilidade afetiva também é escalar oportunidades.

POSSÍVEIS APLICAÇÕES DA SUSTENTABILIDADE AFETIVA

08.

A sustentabilidade afetiva não opera como metodologia fechada. Mas algumas possibilidades de aplicação emergiram ao longo da pesquisa.

NO DESIGN: Processos criativos podem incorporar mais abertura à experimentação, à revisitação e às respostas inesperadas da matéria. Isso significa criar espaços menos orientados apenas pela produtividade contínua e mais atentos aos processos. Significa também reconhecer que o erro não é inimigo do projeto, mas sim parte dele.

NO REAPROVEITAMENTO: 

Resíduos, peças danificadas e materiais descartados podem operar como ponto de partida para novas construções projetuais. Nesse contexto, reaproveitar deixa de significar apenas reduzir impacto ambiental, podendo ser também continuidade material e simbólica. Esse sistema prevê o envolvimento de profissionais que o modelo atual insiste em deixar de fora.

...

E talvez o primeiro passo seja mais simples e mais radical do que parece:

olhar para o que você já tem e perguntar o que ele ainda pode ser.

NAS RELAÇÕES DE TRABALHO: 

A sustentabilidade também envolve reconhecer profissionais criativos como sujeitos capazes de experimentar, investigar e produzir conhecimento. Não falta competência, domínio e criatividade dentro da moda. Faltam estruturas que insiram esses profissionais, enquanto respeitam o ritmo do cuidado, da criação e da investigação, em vez de exigir apenas velocidade e volume.

EM CONTEXTOS EXPERIMENTAIS: 

Biomateriais e práticas laboratoriais podem funcionar como espaços importantes para investigação estética e sensorial. O cropped de alginato e lã que continua intacto, cinco meses após o seu desenvolvimento, diz algo sobre o potencial dessas práticas especialmente em coleções cápsula, projetos artísticos, contextos performáticos como o carnaval e produções de menor escala onde a efemeridade já é parte do propósito.

NA COMUNICAÇÃO: 

Em vez de construir campanhas apenas pela promessa da novidade, marcas podem estimular narrativas mais abertas sobre continuidade, versatilidade e ressignificação. Ao invés de determinar emoções e vínculos previamente projetadas, a comunicação pode convidar os sujeitos a produzirem suas próprias relações com os artefatos com o objetivo de permanência.

Em vez de campanhas que expiram em 15 dias, narrativas que resistem ao tempo. Em vez de "você deve sentir pertencimento", o convite: "o que essa peça significa para você?" A diferença parece sutil, mas é a diferença entre marketing emocional e sustentabilidade afetiva.

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A sustentabilidade afetiva não pretende resolver sozinha as contradições do design, muito menos da moda. Ela também não elimina os impactos ambientais da indústria nem substitui discussões relacionadas à circularidade, produção, trabalho ou responsabilidade ambiental.

Mas ao longo da pesquisa que originou esse material, ficou evidente que algumas dessas contradições também operam no modo como nos relacionamos com aquilo que produzimos, consumimos e descartamos. E que mudar isso exige mais do que novos materiais ou certificações de sustentabilidade no site da sua marca.

Nesse contexto, vínculo, experimentação, subjetividade e matéria, imbricados com a revisitação, deixam de ocupar um lugar secundário. Eles passam a operar como possibilidades críticas diante de uma lógica sustentada pela aceleração constante, pela 

substituição contínua e pelo enfraquecimento das relações construídas com os artefatos.

Revisitar.

Desacelerar. Reconfigurar.

Convidar e escutar em vez de determinar.

Este material é desdobramento da dissertação

"SUSTENTABILIDADE AFETIVA NA MODA:

Uma compreensão pela Prática Experimental Expandida (PEE) em Design Estratégico"

 desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Design Estratégico da UNISINOS, com apoio da CAPES.

Todas as imagens utilizadas são do acervo pessoal da autora, acervo pinterest e desenvolvidas por uma das participantes (Eduarda Kohl D’Avila).

Participantes da PEE:

Ana Carolina Wust 
Ana Luiza Braun Mello
Diuly Harttfeil
Eduarda Kohl D’Avila
Hiago Da Silva Gusen Feijo
Marina Lippmann
Victoria Dani Müller

MICHELLI QUIROZ

Graduada em Design de Moda pela Uniritter (2020); Mestranda em Design Estratégico pela Unisinos (2026); Docente na graduação de Moda Unisinos (2025) e na Prática Experimental Expandida (PEE) (2025); Pesquisadora do Abstracionismo Lírico, Sustentabilidade Afetiva e com especialização em moda streetwear sul-coreana.

DEBORA BARAUNA

Doutora em Design (UFPR, 2018), Mestre em Meio Ambiente (Univille, 2009), Especialista em Educação OnLIFE (Unisinos, 2022) e Bacharel em Design (Univille, 2024). Docente da Escola da Indústria Criativa da Unisinos, vinculada ao Programa de Pós-Graduação.

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